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As Crianças e o Luto

A morte de uma pessoa que nos é querida é uma situação tremendamente dolorosa, para cada um, para a família e para os amigos. A morte é algo natural e que partilhamos com todos os seres vivos, contudo, a forma como a entendemos, como a enfrentamos e como a aceitamos é muito diferente de cultura para cultura, de família para família e de pessoa para pessoa.
Quando falamos de transmitir a uma criança a morte de alguém que lhe é muito próximo, o problema aumenta. Por si só a morte de alguém não é algo que vá forçosamente gerar traumas nas crianças, mas é muito importante a forma como lhes falamos dessa realidade e como as ensinamos a lidar com ela.
Devemos adaptar a linguagem e a informação transmitida à criança à sua idade, uma vez que a compreensão do que é a morte é diferente nas diversas fases de desenvolvimento.

Até aos 2 anos
Nestas idades, as crianças não têm a noção do que é a morte, nem têm capacidade de compreender essa dimensão. Podem aperceber-se da perturbação das pessoas à sua volta, como mudança de rotinas e de horários, do choro, da tristeza, da ausência de sorrisos nas pessoas e da ausência de brincadeiras.
Nestas idades, estas recordações podem ficar guardadas sob a forma de sensações físicas e memórias não verbais.
É, por isso, importante que os adultos consigam cumprir ao máximo as rotinas e os cuidados à criança, pedindo ajuda a outros elementos da família para conseguirem partilhar estas tarefas.

2 - 5 anos (pré-escolar)
Nesta idade, as crianças acham que a morte é reversível (a pessoa foi a algum sitio, mas vai voltar), por isso, devemos explicar-lhes de forma adequada o que se passa. Podem sentir-se desorientadas, confusas, por não saberem onde está a pessoa. Podem apresentar regressão nos seus comportamentos, como forma de lidar com a ansiedade, nomeadamente, voltar a querer a chucha e o biberão. Podem apresentar mais dificuldade em se separarem das pessoas significativas (ansiedade de separação), como forma de se protegerem de novas perdas.
Devemos explicar-lhes de forma clara e simples, utilizando uma linguagem direta e sem duplos sentidos. A morte deve ser explicada às crianças de forma simples e adequada “ o corpo deixa de funcionar, já não sente frio, nem calor, nem dor, nem fome. Como estava muito doente, não foi possível pô-lo de novo bem”
É importante responder de forma simples e honesta às perguntas que a criança pode fazer.

 

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6 -10 anos
As crianças já compreendem a morte como definitiva. Não se pode mentir à criança. As informações devem ser dadas num ambiente calmo e tranquilo. È importante usar uma linguagem simples, direta e adequada à idade da criança. Devem evitar-se expressões ambíguas, como por exemplo “foi dormir um sono muito grande”, que podem baralhar a criança e criar expectativas de regresso, ou situações de revolta perante a ideia de abandono.
Devemos mostrar os nossos sentimentos, para que a criança veja que chorar e ficar triste é normal nessa situação. Mas que, também podemos estar mais calmos porque cada pessoa reage à sua maneira.
Uma dúvida recorrente é se devemos levar as crianças aos velórios ou aos funerais. A resposta é que deve ser a criança a decidir se quer ir ou não. É claro que lhe deve ser explicado o que se faz nesses locais. Deve-se explicar de forma calma que as pessoas vão lá para se despedirem da pessoa que morreu, que estão tristes, que muitas vezes choram e que podem levar flores. Caso a criança queira ir, deve-se escolher um momento mais tranquilo, em que estejam poucas pessoas e que sejam conhecidas.

11 - 12 Anos (adolescência)
Compreendem a morte como definitiva. Podem refugiar-se no grupo de pares e nas suas rotinas, como forma de enfrentar o sofrimento. Deve-se encorajar os jovens a falar da sua perda e a mostrarem o que sentem e pensam. Deve-se dar-lhes apoio e orientação, para que sintam estabilidade e noção de que as regras e os limites continuam a existir.

Teresa Pisco
Psicóloga SPO

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